Estudo com 11,6 mil profissionais mostra por que jovens, mulheres e pessoas pretas estão mais insatisfeitos no trabalho.
Nunca se falou tanto em bem-estar no trabalho. Mas, em 2025, os números mostram que algo está dando errado.
Enquanto discursos se multiplicam, a vida real de quem trabalha ficou mais pesada — especialmente para jovens, mulheres e pessoas pretas.
É o que revela o Check-up de Bem-estar 2025, maior estudo sobre o tema no Brasil, que ouviu 11.600 profissionais no primeiro semestre do ano. O levantamento desmonta uma narrativa confortável: falar de bem-estar não significa, necessariamente, promovê-lo.
Insatisfação cresce e expõe quem mais sofre
Os dados mostram que o bem-estar geral piorou em 2025 em comparação com o ano anterior. A insatisfação aumentou para homens e mulheres, mas não de forma igual.
Mulheres apresentam índices de insatisfação significativamente maiores
Jovens avaliam seu bem-estar de forma mais negativa do que gerações mais velhas
Pessoas pretas e pardas concentram os piores indicadores em praticamente todos os pilares analisados
O estudo deixa claro: as médias escondem desigualdades profundas.
A Geração Z começa a vida profissional já esgotada
Entre todos os grupos analisados, a Geração Z aparece como a mais insatisfeita com o bem-estar geral e com a saúde mental.
O dado mais alarmante:
72% das mulheres da Geração Z relatam sentimentos negativos frequentes, como ansiedade, angústia ou falta de vontade de fazer qualquer coisa
Entre os homens da mesma geração, o índice é menor, mas ainda elevado
A leitura é dura: o esgotamento está começando cada vez mais cedo. E isso tem implicações diretas para engajamento, produtividade, absenteísmo e rotatividade.
A dupla jornada segue sendo feminina — e racializada
O estudo mostra que a chamada dupla jornada — trabalhar fora e cuidar da casa e da família — continua recaindo de forma desproporcional sobre as mulheres.
38% das mulheres acumulam trabalho e responsabilidades domésticas
Entre os homens, esse percentual cai para 24%
Quando o recorte racial entra na análise, a desigualdade se aprofunda. Mulheres pretas e pardas enfrentam níveis ainda maiores de sobrecarga, o que se reflete diretamente em:
Saúde mental
Saúde física
Qualidade do sono
Percepção geral de bem-estar
Políticas “neutras”, portanto, não dão conta de realidades tão diferentes.
O recorte racial do bem-estar no trabalho
Um dos pontos mais contundentes do Check-up de Bem-estar 2025 é mostrar que o bem-estar tem cor.
Na dimensão financeira:
Pessoas pretas e pardas apresentam piores indicadores de saúde financeira
A percepção positiva é muito mais comum entre pessoas brancas
Essa desigualdade não se limita ao salário. Ela envolve estabilidade familiar, redes de apoio e acesso histórico a oportunidades. O resultado é um ciclo contínuo de estresse, que afeta o corpo, a mente e o desempenho profissional.
Como aponta o estudo, a desigualdade não mora só no contracheque — ela mora no corpo.
Saúde mental: consciência alta, ação baixa
Mesmo diante de um cenário emocional crítico, 30% dos profissionais afirmam não fazer nada para cuidar da saúde mental.
Entre as principais formas de cuidado adotadas:
Exercício físico aparece em primeiro lugar
Terapia e meditação seguem com baixa adesão
O dado revela uma contradição importante: as pessoas sabem que precisam cuidar da saúde mental, mas não conseguem transformar isso em prática. Custo, acesso, estigma e exaustão ajudam a explicar esse bloqueio.
Autocuidado em contradição: mais consciência, menos prática
Outros pilares do bem-estar reforçam esse descompasso:
Exercícios físicos: a satisfação com a frequência aumentou, mas a prática real caiu
Alimentação: cresce o número de pessoas que reconhecem que “pode melhorar”, enquanto a satisfação despenca
Sono: cenário estagnado, com piora entre mulheres pretas e pardas
Ou seja, há mais consciência, mas menos energia para agir.
O alerta que os dados deixam para RHs e lideranças
O Check-up de Bem-estar 2025 não aponta soluções mágicas. Mas deixa um recado claro: o problema não é falta de discurso, é falta de enfrentamento estrutural.
Para empresas e lideranças, os dados indicam que:
Bem-estar não pode ser tratado como benefício isolado
Grupos diferentes vivem realidades radicalmente diferentes
Ignorar recortes de gênero, raça e geração aprofunda desigualdades
O custo da inação aparece em forma de adoecimento, queda de engajamento e perda de talentos
Transformar bem-estar em prática exige mais do que campanhas. Exige prioridade, investimento direcionado e coragem para encarar dados desconfortáveis.
Porque, em 2025, os números mostram: falar de bem-estar é fácil. Difícil é mudar a realidade de quem trabalha.

