Afastamentos cresceram 68% em um ano e atingem nível histórico. Ansiedade, depressão e transtornos recorrentes lideram os pedidos ao INSS.
O Brasil vive uma explosão silenciosa dentro das empresas — e ela atende pelo nome de transtornos mentais. Em 2024, o país bateu o recorde da década com quase meio milhão de afastamentos por doenças psicológicas. O número assusta, mas precisa ser compreendido: não se trata apenas de estatísticas, mas de pessoas adoecendo em silêncio sob pressão, metas e esgotamento.
Dados inéditos do Ministério da Previdência Social, divulgados pelo g1, revelam que foram registrados 472.328 afastamentos por problemas de saúde mental no último ano, o que representa um crescimento de 68% em relação a 2023, quando houve 283.471 registros. É o maior número desde que a série histórica começou a ser acompanhada, há pelo menos uma década.
Ansiedade e depressão lideram os afastamentos no INSS
A maioria dos afastamentos foi causada por ansiedade (141.414 casos) e depressão (113.604). Mas os números também revelam a gravidade de outras condições:
52.627 por depressão recorrente
51.314 por transtorno bipolar
21.498 por dependência de drogas
20.873 por estresse grave
14.778 por esquizofrenia
11.470 por alcoolismo
6.873 por vício em cocaína
4.017 por psicose
Curiosamente, o burnout aparece com “apenas” 4 mil casos, mas especialistas explicam que isso ocorre por subnotificação — muitos diagnósticos não são formalizados ou são registrados sob outros códigos.
“Há muita dificuldade em identificar corretamente quadros de esgotamento. Isso exige formação, escuta e tempo — três coisas que faltam hoje nos ambientes de trabalho”, alerta a psicóloga ocupacional Tatiane Campos.
Licença médica não é só número: impacto real nas rotinas do RH
Esses dados representam pedidos de afastamento, e não pessoas únicas. Ou seja, um mesmo colaborador pode ter gerado mais de uma licença no ano. Para o RH, isso significa aumento na burocracia, sobrecarga nas equipes e dificuldade de gestão emocional e produtiva.
Além disso, os estados com maiores volumes absolutos de afastamentos foram São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Já proporcionalmente, o problema se agravou no Distrito Federal, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
NR-1 atualizada: empresas agora podem ser multadas
Diante da explosão de casos, o governo federal atualizou a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que agora exige que as empresas adotem medidas efetivas de promoção da saúde mental no ambiente de trabalho. E o ponto mais importante: o cumprimento dessas diretrizes será fiscalizado e pode gerar multas.
Para o RH, isso significa que o cuidado com saúde mental deixou de ser um diferencial e passou a ser obrigação legal.
“As empresas que não tratarem o tema com seriedade vão enfrentar não apenas processos judiciais, mas também queda de produtividade e clima organizacional cada vez mais tóxico”, afirma Jorge Matsumoto, especialista em legislação trabalhista.
Como o RH e o DP podem agir agora
O cenário é urgente, mas há caminhos concretos para o RH não apenas reagir, mas se antecipar:
Mapeie os afastamentos recentes: entenda as causas mais comuns na sua empresa.
Implemente programas de escuta ativa e acolhimento psicológico.
Inclua treinamentos de saúde emocional para líderes e gestores.
Revisite o clima organizacional com pesquisas frequentes e feedbacks anônimos.
Formalize uma política de saúde mental que atenda às exigências da NR-1.
Além disso, contar com parceiros especializados em saúde corporativa pode acelerar a estruturação dessas iniciativas.
O que está em jogo: pessoas, produtividade e reputação
A explosão dos afastamentos em 2024 mostra que a saúde mental está no centro da agenda trabalhista, e ignorá-la é um risco para qualquer negócio. Mais do que um desafio operacional, o cenário exige uma mudança de cultura: trabalhadores emocionalmente doentes não entregam, não se engajam, não permanecem.
Para Patrícia, analista de RH que viveu de perto a alta de licenças em sua equipe, a virada de chave veio com dados:
“Quando levei esses números pra diretoria, o discurso mudou. A ficha caiu de que não era só uma onda, mas uma crise instalada.”
Se sua empresa ainda não se preparou, agora é a hora. Porque, como mostram os dados de 2024, não cuidar da saúde mental custa muito mais caro do que prevenir.
