Atualização da norma obriga empresas a lidar com saúde mental no trabalho enquanto afastamentos por transtornos mentais batem recorde no Brasil.
Mais de meio milhão de brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais em 2025. O dado acendeu um alerta que muitas empresas ainda insistem em ignorar. Agora, com a atualização da NR-1, saúde mental deixou de ser apenas um tema de bem-estar corporativo e passou a representar risco legal, financeiro e estratégico para organizações de todos os portes.
Uma pesquisa nacional realizada pela Heach Recursos Humanos, com 1.730 empresas brasileiras, revela um cenário preocupante: 68% das organizações afirmam não entender claramente o que muda com a nova norma. Enquanto isso, os afastamentos por ansiedade, depressão e burnout continuam crescendo no país.
O avanço da crise de saúde mental no trabalho
Os números mostram que o problema já ultrapassou o campo das discussões sobre qualidade de vida e se tornou um desafio estrutural no mundo corporativo.
Segundo dados do Ministério da Previdência Social, divulgados pelo G1, o Brasil registrou cerca de 4 milhões de licenças médicas em 2025. Desse total, mais de 500 mil foram concedidas por transtornos mentais, estabelecendo um novo recorde nacional.
Entre os principais fatores associados aos afastamentos estão:
ansiedade
burnout
depressão
estresse crônico relacionado ao trabalho
Esse cenário pressiona empresas a repensar práticas de gestão e liderança.
Com a atualização da NR-1, organizações passam a ter maior responsabilidade na identificação e gestão dos chamados riscos psicossociais, fatores relacionados ao ambiente de trabalho que podem afetar a saúde mental dos colaboradores.
O que muda com a nova NR-1
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) estabelece diretrizes gerais sobre saúde e segurança no trabalho no Brasil.
Com as atualizações recentes, a norma amplia o olhar sobre o ambiente corporativo e exige que empresas avaliem e gerenciem riscos psicossociais, além dos riscos físicos e operacionais já tradicionais.
Na prática, isso significa que as organizações precisam:
identificar fatores que impactam a saúde mental no ambiente de trabalho
estruturar políticas de prevenção
monitorar indicadores de clima e bem-estar
preparar lideranças para lidar com conflitos e pressão emocional
integrar saúde mental à estratégia de gestão de pessoas
Segundo Elcio Paulo Teixeira, CEO da Heach Recursos Humanos, a norma apenas torna visível um problema antigo.
“A nova NR-1 não cria um problema novo. Ela apenas torna visível um risco que as empresas brasileiras vêm ignorando há anos”, afirma o executivo.
Empresas despreparadas para a mudança
Apesar da importância da nova exigência, o estudo revela que grande parte das empresas ainda não possui estrutura para lidar com o tema.
Entre os principais dados da pesquisa:
68% das empresas não compreendem claramente as mudanças da NR-1
62% não possuem indicadores formais para monitorar riscos psicossociais
58% só reagem a problemas após afastamentos ou denúncias
Esse comportamento mostra que muitas organizações ainda operam em um modelo reativo, agindo apenas quando o problema já se tornou crítico.
Para especialistas em gestão de pessoas, a mudança exigida pela norma é cultural e estratégica, e não apenas burocrática.
Lideranças que agravam o problema
Outro ponto revelado pela pesquisa envolve o papel das lideranças no ambiente de trabalho.
O levantamento indica que:
67% dos líderes nunca passaram por avaliação comportamental estruturada
54% nunca receberam treinamento para lidar com pressão emocional
49% dos profissionais de RH afirmam que a liderança é o principal fator de adoecimento das equipes
Isso mostra que o problema não está apenas nas demandas de trabalho, mas também na forma como as equipes são conduzidas.
Quando líderes não possuem preparo emocional ou habilidades de gestão de pessoas, aumentam os riscos de:
conflitos internos
ambientes tóxicos
sobrecarga emocional
perda de engajamento
Com a nova NR-1, esse tipo de situação passa a ser visto também como risco organizacional.
O fenômeno dos profissionais invisíveis
Outro dado preocupante apontado pela pesquisa é o crescimento do chamado “profissional invisível”.
Esse termo descreve colaboradores que sentem que seu trabalho não é reconhecido ou valorizado dentro da organização.
Segundo o estudo:
39% dos trabalhadores se sentem pouco ou nada reconhecidos
48% afirmam assumir responsabilidades acima do cargo
Empresas que apresentam altos níveis de invisibilidade profissional registram até o dobro de turnover em comparação com a média do mercado.
Isso mostra que a falta de reconhecimento pode gerar impactos diretos na retenção de talentos e na estabilidade das equipes.
Como evitar riscos trabalhistas e organizacionais
Diante do novo cenário regulatório, especialistas apontam que empresas precisam começar a tratar saúde mental como tema estratégico de gestão.
Algumas medidas consideradas essenciais incluem:
1. Mapear riscos psicossociais
Avaliar fatores como carga de trabalho, clima organizacional, comunicação interna e estilo de liderança.
2. Criar indicadores de acompanhamento
Monitorar dados relacionados a turnover, afastamentos, engajamento e satisfação das equipes.
3. Capacitar lideranças
Treinar gestores para lidar com conflitos, pressão emocional e gestão humanizada.
4. Estruturar políticas internas de saúde mental
Criar programas contínuos de prevenção, e não apenas ações pontuais.
5. Integrar o tema à estratégia da empresa
Saúde mental precisa deixar de ser apenas um benefício isolado e passar a fazer parte da cultura organizacional.
Um problema que empresas não podem mais ignorar
A atualização da NR-1 marca uma mudança importante na forma como o ambiente de trabalho é avaliado no Brasil.
Mais do que cumprir uma exigência legal, empresas que investem em saúde mental tendem a obter resultados como:
redução de afastamentos
maior retenção de talentos
aumento de produtividade
melhora do clima organizacional
Como resume o CEO da Heach Recursos Humanos:
“Ignorar pessoas sempre teve custo. A diferença é que agora a norma obriga as empresas a enxergarem isso de forma objetiva e mensurável.”
A NR-1 marca uma virada na forma como empresas lidam com pessoas
A atualização da NR-1 deixa claro que saúde mental deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar corporativo. Agora, o tema passa a integrar o campo da responsabilidade legal e da gestão estratégica das organizações.
O crescimento dos afastamentos por transtornos mentais mostra que o problema já impacta diretamente produtividade, retenção de talentos e sustentabilidade das empresas.
Mais do que cumprir uma norma trabalhista, organizações que se anteciparem à mudança terão vantagem competitiva. Ambientes de trabalho mais saudáveis tendem a gerar equipes mais engajadas, menor rotatividade e maior estabilidade operacional.
Por outro lado, empresas que continuarem tratando saúde mental como um tema secundário podem enfrentar custos crescentes, riscos trabalhistas e perda de talentos.
A nova NR-1, portanto, não representa apenas uma obrigação regulatória. Ela funciona como um alerta para um problema que já estava presente no cotidiano corporativo — e que agora passa a exigir ação concreta das empresas.
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